Maria Esther Bueno - O mundo do tênis lamenta a perda


Maria Esther Bueno - 08/06/2018

 

A bailarina que encantou o mundo

Por José Nilton Dalcim

Se houve um momento na história do esporte em que Deus vestiu a camisa verde-amarela, certamente foi na passagem dos anos 50 para 60. Enquanto Adhemar Ferreira da Silva batia recordes e somava medalhas de ouro no salto triplo, o futebol brasileiro ganhava duas Copas do Mundo, o basquete era campeão mundial, Éder Jofre chegava ao topo do boxe e Manoel dos Santos virava o homem mais veloz do mundo na natação.

Então parece lógico que a 10 de outubro de 1939, no sobrado de número 21 da rua Guaporé, bem em frente ao clube Tietê, em São Paulo, nascesse Maria Esther Andion Bueno, fadada a se transformar na melhor tenista do mundo. A filha de dona Esther e de seo Pedro Augusto de Oliveira Bueno, tesoureiro da fábrica de adubos Socil e sócio número 5 do Tietê, onde havia ingressado em 1916, recebeu o dom de jogar tênis como se dança balé.

Em apenas 10 anos efetivos de carreira internacional, Maria Esther reuniu glórias que só podem ser dimensionadas por números. Foram 120 finais de simples, com 65 títulos; e outras 137 de duplas, com 90 vitórias, que se somados aos 15 troféus de duplas mistas totalizam incríveis 170 conquistas. Todas elas fora do país, em pisos completamente distintos como o saibro e a grama. Sua passagem pelos eventos de Grand Slam não foi menos impressionante: 35 finais e 19 títulos, o que inclui o tricampeonato individual em Wimbledon e quatro vitórias nos Estados Unidos. Em 1960, ainda aos 19 anos, foi a primeira mulher a ganhar todos os eventos de Grand Slam de duplas numa única temporada.

"Nasci com um dom, fui escolhida para fazer alguma coisa, e fazer bem, pois acredito que são poucos os que nascem com essa missão. O tênis foi uma questão de exprimir criatividade, o que eu sentia, como um pintor e sua obra", define com perfeição a própria Estherzinha. "Me considero uma heroína de certa forma. Enfrentei muitos sacrifícios e problemas, mas faria tudo de novo. A única mágoa é que minha carreira poderia ter sido muito mais longa".

 

O DESCOBRIMENTO DO TÊNIS


MEBMaria Esther lembra ter pegado na raquete pela primeira vez ainda aos três anos de idade. "Meus pais praticavam no clube e eu e meu irmão Pedro crescemos jogando tênis juntos. Não existe uma razão, simplesmente aconteceu, era uma coisa natural para mim jogar tênis", conta ela, que foi campeã estadual por duas vezes na natação, outro esporte muito tradicional do Tietê.

 

O irmão Pedro, dois anos mais velho, era seu companheiro de tardes infindáveis de fantasia, quando um cobertor no varal fazia a vez de rede e os garotos empunhavam raquetes de pingue-pongue, imaginando que o quintalzinho de casa era um grande estádio de tênis. O sonho começava todas as manhãs no Tietê. Desde os quatro anos, seo Bueno atravessava a rua para jogar uma partida antes do trabalho e levava a pequena Maria, que ficava no paredão, primeiro com um pedaço de pau depois com uma raquete velha. Até que começou a ter aulas com Henrique Terroni, um estilista treinador do clube.

"Quando não estava treinando, ela ficava me assistindo jogar", recorda Terroni numa entrevista dada nos anos 80. "Podia ficar horas e tinha facilidade incrível para repetir os golpes", conta Terroni . "Gostava de imitar jogadores que conhecia. Cada dia escolhia um. Terroni sempre teve um estilo muito bonito, mas cada um já nasce com seu tipo de jogo. O meu era rede, criatividade", define Maria Esther.

Seu primeiro jogo oficial aconteceu na categoria infantil. "Ainda me lembro da minha primeira competição, um Interclubes de 4ª classe. Tinha 11 anos. Senti aquela coisinha que a gente não sabe se é medo ou ansiedade. Depois, vieram os grandes torneios, mas no fundo é a mesma emoção". Na estreia do Interclubes, ganhou de duplo 6/0 de uma moça que poderia ser sua mãe. Franzina, tímida, se acostumou a ter a torcida a seu lado. "Na primeira temporada na Europa, joguei com todo o pessoal que era campeão há anos por lá e ganhei. Se você me perguntar o que mais contou para essas vitórias, diria que foi o público, 200% comigo".

Aos 14 anos, venceu o Brasileiro Infantil em julho e dois meses depois faturou o Brasileiro de Adultos. A boa fase lhe garantiu lugar no time que foi aos Jogos Pan-americanos do México, em 55, o que seria sua primeira viagem internacional. Mas o passo decisivo aconteceria mesmo em 56: "Fui ao Orange Bowl e ganhei. Era a primeira vez que viajava sozinha. Voltei e terminei meus estudos, me formando como professora". Para viajar, ela só tinha a passagem de ida e contou com a ajuda de amigas de clube para garantir a volta.

O falecido Alcides Procópio, então presidente da Federação Paulista, lembrava sempre que o primeiro grande treinador a perceber o futuro que Estherzinha possuía pela frente foi Pancho Gonzalez. Durante uma clínica, realizada no clube Paulistano, o técnico mexicano ficou encantado com a menina. "Pancho a viu jogar e disse: uma mulher que saca tão forte vai ser uma das melhores do mundo".

 

AS PRIMEIRAS AVENTURAS


Maria Esther, já com 1,70m, deixou o Brasil nos últimos dias de 1957 e só retornou em setembro do ano seguinte, com uma inesperada coleção de troféus. Apenas nessa primeira viagem, pouco experiente, ganhou 12 títulos de simples, 15 de duplas e foi a outras 26 finais. Começou pelo bicampeonato no Orange Bowl e os bons resultados como juvenil lhe garantiram os primeiros convites para atuar como adulto no circuito internacional. Assim, logo em seguida, ganhou seu primeiro torneio em Fort Lauderdale e foi vice em Coral Gables.

 

Antes de ir aos EUA, não tinha sequer uma raquete em bom estado. O sucesso ajudou a conseguir o primeiro "patrocínio", um presente oferecido pela marca Wilson. "Ela era bem humilde. Antes da primeira viagem, fiquei três dias reformando suas roupas, que já estavam pequenas e apertadas", segredou certa vez Amélia Cury, companheira do Tietê. Amigos próximos contam que Maria Esther pediu muitas vezes ajuda financeira para manter a carreira. Paulo da Silva Costa, presidente da Confederação Brasileira, e Rubens de Araújo Costa, vice da Federação Paulista, foram os que mais contribuíram.

Aconselhada por Armando Vieira, Maria Esther foi para a Europa, direto para a Itália, local que ficou no seu coração. "Nunca tive uma recepção tão calorosa como na Itália. Primeiro, joguei na Calábria e parei nas semifinais. Aí ganhei convite para disputar o Nacional da Itália, que era o quinto mais importante torneio do calendário. Estava treinando, quando os organizadores me viram em ação e decidiram transferir meu jogo para a quadra central. Foi a primeira vez que mulheres jogaram lá, junto com um torneio masculino", assinala Esther, com orgulho. O mais surpreendente foi vencer especialistas em piso lento com seu estilo já definido de saques e voleios: "As bolas eram enormes e a quadra, lentíssima. Hoje, acho que devo ter jogado mesmo muito para ganhar o título nessas condições", avalia ela.

A série de bons resultados significava sucessivos convites. Foi para a Alemanha, onde ganhou mais dois torneios, e fez sua primeira experiência no saibro de Roland Garros, onde só caiu nas semifinais. Estava então pronta para o desafio em Wimbledon. "Nunca havia sequer visto uma quadra de grama na minha vida". Ainda assim, foi às quartas de final em simples e ganhou duplas ao lado da então número 1 Althea Gibson, que havia se tornado no ano anterior a primeira negra a ganhar Wimbledon. "Ela será minha sucessora", profetizou Gibson. Não errou.

 

SONHO REALIZADO


A vida começava a mudar para Maria Esther. No mesmo ano de 58, em que também foi às quartas do Nacional dos EUA, ganhou um DKW zero quilômetro, o carro da moda, e os amigos do Tietê mandaram colocar pele de onça legítima nele. Mas havia muito ainda por fazer. "Tinha de ficar de oito a nove meses fora do país. Comprava uma passagem do tipo `volta ao mundo', saia em janeiro e só voltava no final do ano", conta. Mesmo com tamanho potencial, ela se lembra de ter ficado horas na recepção do jornal O Estado de S.Paulo para pedir ajuda nas viagens, sempre ao lado do pai.

 

Mas o grande dia estava por vir. Depois de vencer os preparatórios de Birmingham e Bristol, Miss Maria Bueno, como sempre se referiram os ingleses, disputou a primeira rodada de Wimbledon, no dia 23 de junho de 1959. A adversária era a britânica Pamela Edwards, que levou uma surra de 6/1 e 6/3. Estilo agressivo e gracioso, levou um susto na segunda rodada, dia 24, mas se recuperou e marcou 4/6, 6/1 e 
6/1 sobre a alemã Margot Dittmeyer. Em seguida, passou às oitavas com outra virada: 4/6, 6/3 e 6/1 em cima da americana Mimi Harnold. Seria seu segundo e último set perdido no torneio.

A neozelandesa Reneé Morrison caiu por 6/1 e 7/5; a alemã Eda Budding foi eliminada por duplo 6/3; e a americana Sally Modre não tomou mais que 43 minutos de Maria Esther, num fulminante 6/2 e 6/4.
Havia por fim um desafio ainda maior. A outra finalista era a americana Darlene Hard, de 21 anos e vice de 57, para quem Maria Esther havia perdido nos seis jogos anteriores.

No sábado de 4 de julho, calor sufocante de 30 graus, 15 mil pessoas lotaram a quadra central e viram um show. A brasileira, de vestido branco, marcou 11 aces no placar de 6/3 e 6/4, encerrando 21 anos de domínio norte-americano no torneio. No primeiro set, depois de perder o primeiro game de serviço e se recuperar no seguinte, Maria Esther maravilhou o público ao fechar o terceiro game com três aces, o que repetiria no game inicial do segundo set.

"Bueno voleou com um passo assassino e a graça de uma dançarina de balé", escreveu a agência de notícias AP. Depois de cumprimentar o juiz, Maria Esther se pôs a chorar e foi consolada pela própria Hard. O primeiro sorriso só veio quando recebeu o troféu da duquesa de Kent, com quem conversou por um minuto. A duquesa havia visitado o Brasil meses antes. "Não me senti nervosa até o último ponto, aí joguei quase desmaiada. Com 19 anos, não tinha a dimensão exata do que estava acontecendo. Agora vejo a grandiosidade daquele momento e entendo por que meus amigos ficavam tão apreensivos. Para mim, era mais um jogo".

Maria Esther teve de correr a uma loja para comprar um vestido para o baile dos campeões, onde seu histórico parceiro foi o peruano Alex Olmedo. Dançaram o "chá-chá-chá". "O duro mesmo era a hora do discurso, que preocupava a gente mais do que qualquer jogo. O Duque de Kent falava e, em seguida, era a vez dos campeões. Duas mil pessoas ouvindo e você tinha que se dirigir aos presentes e chamá-los pelos títulos de nobreza. Em 59, ainda não estava segura com o inglês. Minha grande recordação da época foi ver My Fair Lady no teatro".

A recepção no Brasil não foi menos surpreendente. Depois de ser cumprimentada no Rio pelo presidente Juscelino Kubstichek, foi para São Paulo, onde 20 mil pessoas a aguardavam no aeroporto. "O voo atrasou 12 horas - houve pane nas hélices antes de descer no Rio - e ainda assim estava todo mundo lá. Desfilei em cortejo pelas ruas da cidade até o clube Tietê, onde coloquei uma estrela de ouro na bandeira. Foi uma recepção bem do povo, que reconhecia a vitória de uma pessoa simples, sem ajuda. Acho que aquilo mexeu com o brio de todo mundo".

 

A GLÓRIA


Maria Esther foi chamada rapidamente de bailarina pelos ingleses, pela leveza com que chegava às bolas e pela perfeição com que executava os golpes. "Antes dela, as mulheres empurravam o saque. Foi a primeira a sacar como homem, com torção do corpo", escreveu Bruno Hilkner, editor da extinta revista Tênis Ilustrada. "A vantagem dela é que subia à rede, tinha o voleio matador. Dava deixada, contradeixada, tinha todos os golpes", conta Rubens Costa.

 

Como explicar que uma tenista de saibro viesse a ganhar na grama? "Acho que é aquela coisa de talento, de versatilidade natural. Nunca havia visto uma quadra de grama, mas você tinha de se adaptar a tudo. Apesar de ser sul-americana, nunca senti preconceito. Me impus logo de início. Por incrível coincidência, eu e o Olmedo éramos sul-americanos e tínhamos origem no saibro, apesar de que ele já morava nos EUA e estava habituado ao piso de cimento", explica ela.

A mesma grama levou Maria Esther ao título de Forest Hills, no Nacional americano, e isso lhe deu não apenas a condição de número 1 do mundo, segundo ranking anual que a Federação Internacional publicava ao final da temporada, mas também a indicação de "melhor atleta em todos os esportes" em 59, em eleição da agência noticiosa AP. "Jamais recebi esse troféu. A festa foi em Los Angeles, mas eu estava na Austrália em janeiro de 60 e nunca consegui reaver o prêmio".

Além do bicampeonato de Wimbledon, a temporada de 1960 serviria para acentuar a importância histórica da brasileira. Ao lado de duas parceiras diferentes - Christine Trumann na Austrália e Darlene Hard nos demais torneios - ela se tornou a primeira mulher a vencer os quatro torneios de duplas de Grand Slam no mesmo ano, algo que só seria repetido por Martina Navratilova em 1984. "Jogávamos simples, duplas, duplas mistas não tanto pela glória, mas para provar que era a melhor, a melhor em tudo".

Cada vez mais seu estilo chamava a atenção. "Estherzinha tinha um comportamento exemplar na quadra, sempre muito humilde", conta Amélia Cury. "Ela não jogava tênis, ela corria pela quadra, toda de branco, num verdadeiro balé", lembra Terroni. "Vão se passar mais 100 anos sem que surja uma nova Maria Esther no Brasil", dizia Procópio.

O ano de 61 foi problemático. Depois de conquistar seis títulos, incluindo o bi no Nacional italiano, contraiu hepatite logo depois de perder nas quartas em Paris e pela primeira vez recebeu ajuda efetiva da Confederação Brasileira. O então presidente Paulo da Silva Costa providenciou assistência médica e financeira. Hard acompanhou a adversária e amiga durante alguns dias. Obrigada a voltar ao Brasil, Maria Esther ficou terríveis oito meses longe do circuito.

 

NÚMERO 1 NOVAMENTE


MEBNão demorou nada para Maria Esther receber um título honorário do sofisticado clube Harmonia. Depois de passar duas temporadas sem brilhar nos grandes eventos, o ano de 1963 marcou seu retorno efetivo e a rara oportunidade de se exibir no Brasil, durante os Jogos Pan-americanos de São Paulo. "Eu tinha ganhado um filhote de cachorro e estávamos brincando quando acidentalmente ele mordeu minha mão direita e rasgou a parte interna de um dos dedos um dia antes da estreia. Foi preciso fazer vários pontos e visitas diárias ao hospital durante o torneio para que eu pudesse jogar (com muita dificuldade para segurar a raquete) a semana toda". Para uma bicampeã de Wimbledon, a campanha foi tranqüila. "Venci na final uma ex-campeã de Roland Garros, a mexicana Yolanda Ramirez, por 6/3 e 6/3. Foi muito importante ganhar na minha cidade um torneio de prestígio. Afinal, todos os meus maiores resultados tinham sido fora do Brasil". Ela ganhou também prata nas duplas femininas e nas duplas mistas.

 

Quadrifinalista em Wimbledon, Estherzinha voltou a se firmar como rainha da grama ao conquistar seu segundo troféu em Forest Hills. Era o prenúncio de que viria mais uma temporada inesquecível. Em 64, novamente no auge, venceria nada menos que 10 torneios, incluindo o tri em Wimbledon e nos Estados Unidos, resultados que a levariam pela terceira vez ao número 1 do ranking.

"Wimbledon é o máximo. Para cada jogador deve ter um significado diferente, porque as épocas e o jogo mudam, mas uma coisa é certa: não existe nada como ganhar em Wimbledon", exalta. "Cada título em Londres teve algo de especial. No primeiro, eu não sentia bem o que era aquilo. Até o juiz falar "game-set-match-championship" era um jogo qualquer. Sentei na cadeira e me assustei com o que tinha feito. Então chorei e todos vieram me consolar dizendo "não faz mal, você ganhou". Já no segundo, vinha jogando bem e tive um sério problema com os dentes do siso, que nasceram infeccionados justamente na semana anterior a Wimbledon. Passei uma semana de cama, sem treinar. Aí entrei com a cara e a coragem e perdi pouquíssimos games até a final, poucas vezes atuei tão bem. Já o terceiro teve mais valor pela sucessão de problemas físicos. Muitos diziam que não suportaria três sets - minha adversária era a Margaret Court, que já fazia grande trabalho de preparo físico, era um touro, um touro enorme - e ganhei justamente em três sets".

Nessa altura, Maria Esther também já era famosa pelas roupas charmosas que usava. A brasileira havia sido escolhida por Ted Tinling, o mais prestigiado costureiro que o tênis já teve, como seu principal modelo. Vestidos chamativos, coloridos, ousados fizeram parte do guarda-roupa. "Lembro que houve um torneio onde usei 21 vestidos diferentes", conta ela. De tão imensa coleção de saias e blusas para jogar tênis, Maria Esther ainda guarda algumas peças. Boa parte foi doada para museus do mundo todo. "Um fato inesquecível aconteceu já em 69, durante o torneio de Nottingham, na Inglaterra. Tive todos os uniformes roubados por fãs enlouquecidos e só descobri isso minutos antes da última partida. Não havia mais tempo de comprar a roupa branca exigida pelo torneio e então a saída foi entrar na quadra vestindo o conjunto de calça e moletom vermelho e explicar para a plateia o motivo". No dia seguinte, Estherzinha recebeu dezenas de uniformes de presente.

O tricampeonato na Itália veio em 65, junto com sua primeira e única final na Austrália, que completava assim sua presença na última rodada de simples de todos os eventos de Grand Slam. Na temporada seguinte, a rainha da grama continuava em forma. Fez sua quinta final individual em Wimbledon e alcançou o tetra nos Estados Unidos, ganhando duplas nos dois eventos. "As emoções que senti com o tênis, nunca mais. Não dá para dimensionar o que é sair daqui, sem nada, e conseguir se formar como pessoa, esportista e ter reconhecimento no mundo inteiro. Consegui exatamente o que queria".

 

A CONTUSÃO E A PARADA


Os problemas no braço direito começaram, por ironia do destino, em Wimbledon. Em 67, jogou 110 games num único dia e começou a sentir dores insuportáveis no braço direito, o que se tornaria uma crônica contusão conhecida como tennis-elbow, ou seja, a inflamação do tendão do cotovelo. "Tudo o que aconteceu comigo foi em Wimbledon, as melhores e as piores coisas. Eu podia ter me contundido em qualquer lugar do mundo, mas foi justamente lá".

 

Insistente, jogou ainda todo o ano de 68, com dois títulos na grama de Eastbourne e Manchester, e quartas de final na França e Wimbledon. Mas o esforço estava ficando difícil de suportar. Ao lado de Court, ganhou as duplas no já US Open, seu último título de Grand Slam e o primeiro como profissional. Foram então dez cirurgias no braço direito que nunca resolveram o problema. Maria Esther tentou de tudo, até curandeiro indiano, mas pouco conseguiu.

Fez o primeiro retorno às quadras em 74 a tempo de ganhar seu 63º e último título internacional de simples, no Japão. Mais dois anos de afastamento e veio nova tentativa. Aos 36 anos, caiu na primeira rodada de Roland Garros, voltou a Wimbledon para ir até as quartas e ganhou dois jogos no US Open. Em 77, jogou seus últimos cinco torneios, com um vice em Dublin. No último deles, em outubro, justamente em São Paulo, caiu diante da holandesa Betty Stove na segunda rodada, com 6/0 no segundo set. Admitiu finalmente que não tinha mais forças para sacar como antes e anunciou o abandono definitivo.

"O problema no braço é para sempre. Minha programação passou a ser supercontrolada para manter o pouco que ainda resta", revela. No ranking extra-oficial, feito ao final de cada temporada pela mais importante revista norte-americana de tênis, Maria Esther ficou 10 anos entre as dez melhores do mundo. "O tênis sempre foi minha principal atividade, através dele tive as minhas maiores chances na vida. Consegui conhecer o mundo, viajar por lugares incríveis, fazer sólidas amizades, entrar em contato com as personalidades mais célebres e sobretudo conseguir meu lugar na história. Fiz o Brasil ser conhecido e respeitado", garante, com orgulho.

Ao final de sua espetacular trajetória, Maria Esther carinhosamente conta todos seus 585 títulos, incluindo vices e medalhas de bronze. "Foram colecionados desde os nove anos de idade. Torneios pequenos, grandes, mas tudo conta!" Mais importante ainda foram as dezenas de condecorações que recebeu, mesmo após décadas de afastamento do circuito. Integrante do Hall da Fama desde 1978, foi eleita a "melhor tenista da América Latina do século 20" e recebeu em 2003 o troféu "Jean Borotra" como conduta esportiva e serviços prestados ao esporte.

No Brasil, o reconhecimento de seu trabalho nem sempre foi total. Em primeiro lugar, porque viveu uma era em que as comunicações eram lentas e seus resultados, por vezes, demoravam dias para chegar às redações dos jornais. Sem TV, poucos tiveram a honra de admirar seu estilo e sua graça. Enquanto isso, lá fora, sempre foi tratada como rainha. Ao completar 50 anos, em 1989, a BBC mandou uma equipe ao Brasil para fazer um documentário, exibido para toda a Europa em horário nobre. Ela também atuou como comentarista da própria BBC, foi consultora da Federação Internacional e da Confederação Sul-americana, além de realizar constantes clínicas na Inglaterra e Estados Unidos. "Com as minhas vitórias, o mundo olhou para o Brasil de um jeito diferente. Deixamos de ser apenas o país do futebol".


por MARCO AURÉLIO Cerqueira 11/06/2018 17:06